Segunda-feira, Agosto 06, 2007

Diário da Volta I


A literatura corre perigo de vida e a culpa é da CP. Ainda sou do tempo em que havia o chamado “comboio-correio”, que demorava uma noite inteira a ligar as duas maiores cidades do país. À mia-noite partia uma composição de Campanha, o mesmo acontecendo na estação de Santa Apolónia. Eram tempos gloriosos. As carruagens tanto podiam as dos desconfortáveis comboios urbanos de então como daqueles vagões com compartimentos separados do corredor por uma porta de correr.
No “correio” um equilíbrio caótico. Militares imberbes aos urros alcoólicos, inspirados pela cerveja das latas vendidas a bordo no bar ambulante, partilhavam o espaço com prostitutas gastas. Jovens deprimidos liam autores inimigos do mercado mas amigos da negritude artística, enquanto no banco da frente uma família da província mastigava sandes de panados impregnados de alho. Era todo um universo inspirador. Uma viagem no “correio” por semana dava um romance ao fim de um ano.
Mas tudo isso se perdeu. O “correio” já não existe. Agora, imperam as carruagens socialmente assépticas dos pendulares, microcosmos morto por natureza. Assim, não há inspiração que resista. Cortando a veia inspiradora aos passageiros, a CP está a matar a literatura.
E assim cheguei a Tunes, a caminho de Portimão, onde daria início à minha primeira Volta a Portugal vivida do lado de dentro.

1 Comentário(s):

At 02 Setembro, 2007 00:22, Blogger McBrain disse...

Não tens o correio, mas ainda deves ter o inter-regional.... creio eu, não? :-)

 

Enviar um comentário

<< Home