Um português dos antigos
Encaminhei-me ao seu local de atendimento ao público e fui recebido com o melhor sorriso que ele conseguiu colocar na boca desdentada com um ou outro dente resistente, embora podre. O sorriso atirou para cima de mim um intenso hálito a bagaço. Ainda não eram dez e meia da manhã.
Executou quase todo o serviço sem dizer palavra. Eu mantive-me em silêncio também. Às tantas dispara: «Os gajos em Lisboa estão a levar um euro e oitenta por uma sardinha. Um tipo come uma sardinha, um naco de broa e um bocado de pimento; bebe um copito, toma café e o seu bagaço e fica teso». Concordei que se trata de um roubo. Foi o bastante para que o homem se entusiasmasse. Tratou de contar uma série de histórias. Acabou por revelar uma certa fixação nas fardas da autoridade policial. No último dos episódios narrados percebi o motivo. Freud explica.
Certa ocasião, rumou a Lisboa com um amigo, levando na bagagem um intuito: festejar o Santo António e comer sardinhas de borla. Pelo que me disse conseguiu-o. Entraram numa taberna, pediram de comer e de beber, dizendo ser agentes da PSP à paisana. Essa apresentação foi o bastante para o taberneiro, no fim do repasto, dizer: «Está pago».
Mais a norte, em Penafiel, o meu interlocutor estava na paragem de autocarro quando viu «uma gaja boa como o milho. Ela estava a olhar para mim e começou a chegar-se». Até que a mulher terá iniciado um diálogo:
- Tu és GNR, não és?
- Sou!, mentiu o tipo que me estava a contar a história.
Mais pergunta, mais resposta, acabaram na cama. «Dei-lhe uma queca. No fim:
- Quanto é?
- Não é nada.
À conclusão: os gajos da PSP e da GNR têm uma sorte do caralho».
Ao que parece, ainda foi para a cama com a mesma parceira mais uma série de vezes. Numa das ocasiões, propôs: «Hoje fazes-me um bico. Ela fez. Nunca maisa forniquei. Enojam-me as gajas que fazem bicos».
O monólogo do homem foi-se desenrolando, limitando-me eu a acenar com a cabeça e a dizer um sim ou um pois nos momentos que me pareceram adequados. Sentindo-se ouvido, revelou um episódio que terá vivido na Suíça.
Trabalhava naquele país e conheceu uma enfermeira italiana. Enrolou-se com ela. «Estávamos ali no roço, mas não passava disso. Eu metia-lhe o dedo, mas depois: tá quieto! Andei 15 dias a estudar como havia de comê-la. Às tantas, estávamos lá os dois todos nus, eu a passar-lhe o dedo - e o Eusébio ali todo levantado. Até que numa altura ela pensava que era o dedo e já estava o Eusébio lá dentro».
A falta de dentes atrapalha um bocado a transmissão da mensagem por parte deste cavalheiro, pelo que soltou uns sons imperceptíveis para mim e eu fiquei sem saber por que motivo se zangaram com a enfermeira italiana. Sei que, entretanto, foi com ela à farmácia «comprar a pirula». E sei que, quando se zangou, atirou com duas cervejas aos olhos dela. «Azar do caralho: so depois de as mandar é que me lembrei que ela tinha lentes de contacto». Vai daí, teve de fugir da Suíça antes que fosse preso. Eis o motivo da fixação nas fardas, diria o Freud e eu concordo.
Dito isto, explico que esta descrição de momentos da vida real foi-me feita, esta manhã, pelo barbeiro que me cortou o cabelo. Acrescente-se que, mal acabou o serviço, foi a correr para os lavabos, deixando a um colega a tarefa de me cobrar e de receber o troco. Um português dos antigos.

É o barbeiro que parece o Zé Gaiola?
foda-se. sem palavras.
Exactamente, o que parece o zé gaiola.
Sem palavras porque Daniela? O gajo é genial e tu dizes uma coisa dessas?
Que história do caralho. Caguei-me a rir. Este homem e um SENHOR... foda-se.
Zé do Telhado
há anos que não vou a um estabelecimento desses... mas essa história deixa-me com vontade de regressar!!!
Parece-me ser um gajo digno.
De facto, no barbeiro conhecem-se pessoas de um calibre anormal. Agora a questão é tu confiares o teu pelo a gente assim! Olha que se o gajo está aborrecido um dia ainda te dá uma tesourada onde não deve! :-)