Leituras
Este texto começa com algo contrário ao meu pensamento, mas, infelizmente, nem sempre ausente da minha prática: um lugar-comum. Cá vai ele: (também) sou o que li. Absorvendo as palavras do jornalista e escritor Armando Baptista-Bastos, hoje publicadas no Ípsilon, tomei, mais uma vez, consciência desse facto. Tudo porque o texto mencionava passagens do livro As Palavras dos Outros, daquele autor.
Lembro-me de ter lido essa obra, compilação de trabalhos jornalísticos de Baptista-Bastos, e de ter pasmado com a qualidade do trabalho, que não revelava senão a qualidade do homem. O que perpassava por aquelas páginas era a marca do humanismo de um autor, jornalista e escritor, com uma bagagem cultural tal que podia dar-se ao luxo de ser criativo, inovador, acutilante sem ser parolo. Nos tempos que correm, a imprensa portuguesa – e não só – está cheia de escrevinhadores e de pés-de-microfone parolos, sem graça e sem conseguirem ser engraçados… embora tentem umas piadolas, volta e meia. A geração de Baptista-Bastos desapareceu das redacções e a cultura geral profunda desapareceu da sociedade. Hoje, não há um único jornalista em Portugal de quem se pudesse fazer uma compilação de trabalhos com metade da qualidade de As Palavras dos Outros. O que sobra em vaidadezinhas, escasseia em brilhantismo.
Entusiasmei-me com estas ideias e afastei-me daquilo que queria comunicar – acontece a quem não domina a arte, deixa-se dominar por ela. Voltando, portanto, ao que aqui me levou a dedilhar umas frases: se eu sou aquilo que li, depois de as leituras me terem transformado no que sou, como leria eu na actualidade as minhas leituras passadas? Vou reler o livro de Baptista-Bastos a que me venho referindo e depois digo qualquer coisa.

Posta brilhante.... podes não ser o Baptista-Bastos, mas sabes escrever..
P.S.: E o Vasco Pulido Valente, não escreve bem? :-)