Quinta-feira, Setembro 06, 2007

Estou...

...além.

Segunda-feira, Agosto 06, 2007

Diário da Volta II

O meio de transporte já não é o comboio. Estou a bordo de uma Ford Transit com cerca de dezena e meia de anos, idade que contribui para os tremeliques da viatura sempre que o pedal do acelerador vai mais fundo.
O calor é mais do que muito, explicando-se assim o porquê de a estrada ser bordejada, ao longo da maior parte da ligação, por montes inóspitos, nos quais sobressai mais o castanho, aqui e ali barrento, do solo do que o verde da vegetação.
A serra algarvia, que ainda há pouco se avistava ao longe, está agora a correr na nossa direcção. Já chegou e teve a delicadeza de abrir uma passagem para que a nossa carripana – e as autocaravanas modernas das equipas estrangeiras – pudesse passar.
O hedonismo massificado do litoral algarvio está definitivamente para trás. Aqui não tropeçamos em turistas com poder de compara a cada 20 centímetros de estrada. Toda a paisagem cheira a suor de trabalho esforçado. A cada passo – passos curtos quando se avança estrada fora a grande velocidade – vêem-se estruturas que indiciam a existência de explorações agro-pecuárias por perto. E, obviamente, o pensamento já não se desvia de todas aquelas pessoas que queimaram a vida sem a viver, torrando a pele sob o sol inclemente, dando dinheiro a ganhar aos senhores das terras, que, gulosamente, enriquecem sem se importarem que as notas das suas gordas contas bancárias estejam cheias de manchas de sangue, suor e lágrimas daqueles de quem a vida abdicou, ao fazê-los nascer na miséria que se reproduz no trabalho mal pago.
E eu? Cá vou andando. Estou a adaptar-me aio ritmo. Ontem só consegui ler os jornais do dia – e apenas as páginas de ciclismo – já passava da meia-noite e já eu estava na cama, um olho fechado e outro mal aberto. Hoje já li quase toda a imprensa – também apenas as páginas de ciclismo – e ainda não é meio-dia.

Diário da Volta I


A literatura corre perigo de vida e a culpa é da CP. Ainda sou do tempo em que havia o chamado “comboio-correio”, que demorava uma noite inteira a ligar as duas maiores cidades do país. À mia-noite partia uma composição de Campanha, o mesmo acontecendo na estação de Santa Apolónia. Eram tempos gloriosos. As carruagens tanto podiam as dos desconfortáveis comboios urbanos de então como daqueles vagões com compartimentos separados do corredor por uma porta de correr.
No “correio” um equilíbrio caótico. Militares imberbes aos urros alcoólicos, inspirados pela cerveja das latas vendidas a bordo no bar ambulante, partilhavam o espaço com prostitutas gastas. Jovens deprimidos liam autores inimigos do mercado mas amigos da negritude artística, enquanto no banco da frente uma família da província mastigava sandes de panados impregnados de alho. Era todo um universo inspirador. Uma viagem no “correio” por semana dava um romance ao fim de um ano.
Mas tudo isso se perdeu. O “correio” já não existe. Agora, imperam as carruagens socialmente assépticas dos pendulares, microcosmos morto por natureza. Assim, não há inspiração que resista. Cortando a veia inspiradora aos passageiros, a CP está a matar a literatura.
E assim cheguei a Tunes, a caminho de Portimão, onde daria início à minha primeira Volta a Portugal vivida do lado de dentro.

Diário da Volta

Durante a minha passagem pela Volta a Portugal, irei escrever uma espécie de diário de bordo. As minhas sensações e reflexões de viagem serão aqui publicadas, sempre que tenha internet disponível para fazê-lo.

Domingo, Julho 01, 2007

Resposta a um comentário capaz de denegrir a minha imagem


Em resposta a um comentário colocado na posta de baixo, deixo aqui uma imagem que mostra que nunca de livre vontade eu colocaria um objecto parvo pendurado ao pescoço. Fui coagido a pendurar a prenda oferecida aos convidados. Fi-lo apenas durante os segundos estritamente necessários para a foto... Mas com cara de mau!

O casamento


Bastou vestir um blazer pela primeira vez na vida para a minha namorada apanhar o ramo da noiva, no casório a que fomos ontem. Quer isto dizer que se eu tivesse ido mais além, amarrando uma gravata ao pescoço, por exemplo, ainda me arriscava a sair da boda mais casado do que o noivo?

Terça-feira, Junho 26, 2007

José no País dos Tribunais - Só me faltava esta

No mês passado, estive no Tribunal de Valongo como testemunha de um julgamento relativo a que eu assisti num café. Perdi toda a amnhã e o julgamento não se realizou devido à falta de um dos réus.
Hoje recebo em casa uma notificação para pagar 192 euros por, alegadamente, ter faltado ao julgamento, quando, bem vistas as coisas, o julgamento é que me faltou a mim. Já enfiei num envelope a resposta que amanhã seguirá por correio. Os leitores deste blogue aqui a têm, em primeira mão:

Em resposta ao assunto em cima mencionado, venho por este meio contestar a multa que os senhores pretendem aplicar-me. Afirmam na notificação que me foi enviada que faltei ao julgamento agendado para o dia 31 de Maio, para o qual fora convocado na qualidade de testemunha.

Trata-se de uma mentira. Eu estive presente nesse tribunal, na data indicada, durante praticamente toda a manhã. Só abandonei as instalações – aliás, péssimas e indignas – do tribunal já no final da manhã, quando todos os presentes para o julgamento em causa foram informados de que esse julgamento seria adiado, em virtude da falta de um dos réus.

Caso necessitem, posso apresentar várias testemunhas da minha presença nesse local, no dia e hora para que fui convocado. Portanto, não percebo o motivo da vossa carta e, desde já, informo que me recuso a pagar seja o que for. Aliás, os senhores é que deviam pagar-me o tempo que estou a perder ao redigir estas linhas, assim como aquele que perderei na estação de correios para vos enviar esta resposta. Já para não falar no dinheiro que sairá do meu bolso para custear os portes de correio e o registo da carta que vejo forçado a remeter-vos.

Espero que não me voltem a aborrecer com este assunto, dado que um cidadão cumpridor, que até faz a vontade ao Ministério Público, correspondendo à chamada deste para testemunhar num processo, não deve estar sujeito à incompetência de alguém que resolveu cobrar umas multas.

Saudações

Sexta-feira, Junho 22, 2007

Leituras

Este texto começa com algo contrário ao meu pensamento, mas, infelizmente, nem sempre ausente da minha prática: um lugar-comum. Cá vai ele: (também) sou o que li. Absorvendo as palavras do jornalista e escritor Armando Baptista-Bastos, hoje publicadas no Ípsilon, tomei, mais uma vez, consciência desse facto. Tudo porque o texto mencionava passagens do livro As Palavras dos Outros, daquele autor.
Lembro-me de ter lido essa obra, compilação de trabalhos jornalísticos de Baptista-Bastos, e de ter pasmado com a qualidade do trabalho, que não revelava senão a qualidade do homem. O que perpassava por aquelas páginas era a marca do humanismo de um autor, jornalista e escritor, com uma bagagem cultural tal que podia dar-se ao luxo de ser criativo, inovador, acutilante sem ser parolo. Nos tempos que correm, a imprensa portuguesa – e não só – está cheia de escrevinhadores e de pés-de-microfone parolos, sem graça e sem conseguirem ser engraçados… embora tentem umas piadolas, volta e meia. A geração de Baptista-Bastos desapareceu das redacções e a cultura geral profunda desapareceu da sociedade. Hoje, não há um único jornalista em Portugal de quem se pudesse fazer uma compilação de trabalhos com metade da qualidade de As Palavras dos Outros. O que sobra em vaidadezinhas, escasseia em brilhantismo.
Entusiasmei-me com estas ideias e afastei-me daquilo que queria comunicar – acontece a quem não domina a arte, deixa-se dominar por ela. Voltando, portanto, ao que aqui me levou a dedilhar umas frases: se eu sou aquilo que li, depois de as leituras me terem transformado no que sou, como leria eu na actualidade as minhas leituras passadas? Vou reler o livro de Baptista-Bastos a que me venho referindo e depois digo qualquer coisa.

Quinta-feira, Junho 21, 2007

Cheguei ao Brasil

Anda um gajo uma vida inteira dedicado à escrita. Volta e meia carrega no gatilho, mais por desporto do que outra coisa, e internacionaliza-se através das fotos e não das palavras? Ele há cada uma...

Os fugitivos

Quem me lê há mais tempo e quem me conhece pessoalmente sabe de uma característica aqui do rapaz: sei que tenho valor e não me refugio em falsas humildades, afirmando-me, sem vergonha, um gajo do caralho! Mais: sou o maior do mundo, digo muitas vezes a brincar... mas com o seu quê de sinceridade e de genuíno convencimento.
Essa minha forma de estar na vida e de me ver perante os outros torna difícil a minha participação em projectos colectivos. Frequentemente, sinto-me frustrado quando sou obrigado a trabalhos de grupo, porque acabo por ficar com a sensação de que, se tivesse eu feito o trabalho sozinho, o resultado seria bem melhor.
A minha integração no projecto, a três, de lançamento do Jornal Ciclismo foi, portanto, um risco. Mas sucedeu o inesperado. Com alguns meses de trabalho mais ou menos intensivo para conseguir levar este projecto a bom porto, sinto-me satisfeito e tenho uma certeza: sozinho não faria melhor. Os parceiros de projecto têm permitido fazer as coisas com uma qualidade que eu sozinho nunca atingiria. Aliás, isso é válido para a concretização das ideias mas também para o surgimento destas. O entendimento tem sido tão agradável que as ideias de um passam a ser as de todos e, passado pouco tempo de florirem, já nem sei quem se lembrou disto ou daquilo. Há um verdadeiro trabalho colectivo. O que é uma novidade para mim.
Um dia destes, um dos meus parceiros de aventura usou uma expressão que me parece a mais apropriada, dada a natureza do que está em causa. «Parecemos dois fugitivos, que já vão cansados, mas que se vão animando um ao outro, à vez, dizendo que é possível chegar isolados à meta». É isso mesmo: desgasta andar a batalhar para tentar levar avante a ideia, mas, quando tudo poderia já estar perdido, ainda temos suficiente margem de manobra para pensar em vencer esta "corrida".

Sábado, Junho 16, 2007

Títulos

"S. João antecipado" foi o título da minha peça na Visão desta semana, a propósito da actuação do dj Tiesto na Ribeira do Porto. "Dj Tiesto antecipou o S. João", lê-se no título de uma peça de hoje do Jornal de Notícias.
Duas conclusões: o diário portuense manifesta algum descuido, porque fica sempre mal usar o mesmo título - mais coisa menos coisa - já utilizado por outros, é mau jornalismo; estou mesmo convertido ao jornalismo de frivolidades, espero ao menos fazê-lo bem, porque até é divertido, pois permite mais criatividade na escolha das palavras, embora, como se viu neste caso, nem todos explorem as potencialidades da coisa.

Quarta-feira, Junho 13, 2007

Um português dos antigos

Encaminhei-me ao seu local de atendimento ao público e fui recebido com o melhor sorriso que ele conseguiu colocar na boca desdentada com um ou outro dente resistente, embora podre. O sorriso atirou para cima de mim um intenso hálito a bagaço. Ainda não eram dez e meia da manhã.
Executou quase todo o serviço sem dizer palavra. Eu mantive-me em silêncio também. Às tantas dispara: «Os gajos em Lisboa estão a levar um euro e oitenta por uma sardinha. Um tipo come uma sardinha, um naco de broa e um bocado de pimento; bebe um copito, toma café e o seu bagaço e fica teso». Concordei que se trata de um roubo. Foi o bastante para que o homem se entusiasmasse. Tratou de contar uma série de histórias. Acabou por revelar uma certa fixação nas fardas da autoridade policial. No último dos episódios narrados percebi o motivo. Freud explica.
Certa ocasião, rumou a Lisboa com um amigo, levando na bagagem um intuito: festejar o Santo António e comer sardinhas de borla. Pelo que me disse conseguiu-o. Entraram numa taberna, pediram de comer e de beber, dizendo ser agentes da PSP à paisana. Essa apresentação foi o bastante para o taberneiro, no fim do repasto, dizer: «Está pago».
Mais a norte, em Penafiel, o meu interlocutor estava na paragem de autocarro quando viu «uma gaja boa como o milho. Ela estava a olhar para mim e começou a chegar-se». Até que a mulher terá iniciado um diálogo:
- Tu és GNR, não és?
- Sou!, mentiu o tipo que me estava a contar a história.
Mais pergunta, mais resposta, acabaram na cama. «Dei-lhe uma queca. No fim:
- Quanto é?
- Não é nada.
À conclusão: os gajos da PSP e da GNR têm uma sorte do caralho».
Ao que parece, ainda foi para a cama com a mesma parceira mais uma série de vezes. Numa das ocasiões, propôs: «Hoje fazes-me um bico. Ela fez. Nunca maisa forniquei. Enojam-me as gajas que fazem bicos».
O monólogo do homem foi-se desenrolando, limitando-me eu a acenar com a cabeça e a dizer um sim ou um pois nos momentos que me pareceram adequados. Sentindo-se ouvido, revelou um episódio que terá vivido na Suíça.
Trabalhava naquele país e conheceu uma enfermeira italiana. Enrolou-se com ela. «Estávamos ali no roço, mas não passava disso. Eu metia-lhe o dedo, mas depois: tá quieto! Andei 15 dias a estudar como havia de comê-la. Às tantas, estávamos lá os dois todos nus, eu a passar-lhe o dedo - e o Eusébio ali todo levantado. Até que numa altura ela pensava que era o dedo e já estava o Eusébio lá dentro».
A falta de dentes atrapalha um bocado a transmissão da mensagem por parte deste cavalheiro, pelo que soltou uns sons imperceptíveis para mim e eu fiquei sem saber por que motivo se zangaram com a enfermeira italiana. Sei que, entretanto, foi com ela à farmácia «comprar a pirula». E sei que, quando se zangou, atirou com duas cervejas aos olhos dela. «Azar do caralho: so depois de as mandar é que me lembrei que ela tinha lentes de contacto». Vai daí, teve de fugir da Suíça antes que fosse preso. Eis o motivo da fixação nas fardas, diria o Freud e eu concordo.
Dito isto, explico que esta descrição de momentos da vida real foi-me feita, esta manhã, pelo barbeiro que me cortou o cabelo. Acrescente-se que, mal acabou o serviço, foi a correr para os lavabos, deixando a um colega a tarefa de me cobrar e de receber o troco. Um português dos antigos.

Sexta-feira, Junho 08, 2007

A vantagem de ser um gajo peculiar

As pessoas normais dão importância ao dia de aniversário. Eu não perco tempo a pensar nessa data nem a planear comemorações. Por conseguinte, as pessoas normais precisam que o dia de aniversário seja perfeito para se sentirem felizes. Eu apenas quero que esse dia seja igual aos outros.
A minha postura traz algumas vantagens. Por exemplo, hoje, dia em que faço 29 anos, tenho uma jornada de cão. Trabalhei de manhã, mas foi uma coisa leve e agradável. De tarde, estive no meu posto de trabalho numa loja de telemóveis, o que já não é tão bom. À noite, tenho de ir, em trabalho para a secção de Noites da revista com a qual colaboro, a uma discoteca de tias e de betos, que reabre hoje. Sendo eu um gajo que preza muito os tascos e que detesta a generalidade das discotecas, já para não falar no asco que me fazem as tias e os betos, ficaria tristíssimo com o meu dia de aniversário... se lhe passasse cartão. Como não passo cartucho a tal data, está tudo a rolar. É uma das vantagens de ser um gajo peculiar.

PS: Além de peculiar, considero-me astuto. Com um contacto telefónico, arranjei maneira de ir à tal disoteca antes da festa privada de reabertura começar. Assim, apanho aquilo mais ou menos vazio e não tenho de levar com as tias nem com os betos.

Quarta-feira, Junho 06, 2007

Regresso à imprensa

O meu regresso à imprensa consumou-se hoje, através da publicação no suplemento Visão Sete, da Visão, da primeira das páginas semanais que farei para aquela publicação.
É certo que não estou ainda a fazer reportagens, entrevistas e notícias daquelas que doem aos poderosos e, por isso, dão gozo. Trata-se, portanto, de um regresso ao jornalismo pela porta pequena. Mas vale mais entrar pela porta pequena de um edifício enorme, como é a Visão e o grupo Impresa, a que pertence, do que entrar pela porta grande de uma qualquer publicaçãozita de província.
E, se este número experimental aguçar os apetites das pessoas certas - e tudo indica que sim -, em breve haverá mais novidades sobre o meu regresso ao jornalismo.

Quarta-feira, Maio 30, 2007

Encontro com o ídolo

A minha vida atribulada e cheia de trabalho dos últimos dias levou-me ontem ao encontro do meu ídolo de infância e adolescência. Não fui lá confessar-lhe admiração, fui apresentar-lhe um projecto - o meu grande projecto profissional deste momento.
Ia com alguns receios. Quando se vai ao encontro de um ídolo, teme-se sempre que a realidade seja diferente dos construções mentais que fizemos. E se o gajo é arrogante e má pessoa? E se pensa de forma completamente diferente da nossa?
Vim de lá surpreendidíssimo. O homem é um cavalheiro, fala abertamente dos assuntos, nota-se ser um tipo porreiro. Além do mais, mostrou-se entusiasmado com o projecto que lhe foi apresentado e, desde logo, começou a ajudar-nos (a mim e ao meu "sócio") a levar avante as ideias.
Há coisas do caraças! Este tipo levou-me a apaixonar-me pelo ciclismo. Fez-me mudar de clube. E, com um jeitinho, ainda me ajuda agora a mudar de vida.

Domingo, Maio 27, 2007

Contrariar os fantasmas

Ignoro se será só uma característica minha ou se é algo de recorrente na espécie humana. O certo é que tenho por hábito estabelecer metas e traçar planos para atingi-las. Depois de executar a maior parte dos planos e quando me apresto para a fase decisiva, aquela em que ou consigo alcançar os meus objectivos ou não chego lá, dá-me o pessimismo. Mais do que pessimismo, acho que é medo.
Estou nessa fase. Em parceria com outras pessoas criei um projecto de raiz. Estamos agora no momento de apresentar esse projecto e de testar a sua viabilidade. Se der resultado, mudo de vida e posso estar a dar o primeiro passo para fazer algo que sempre quis. Tudo o que havia sido previsto, com um ou outro atraso, foi cumprido. No entanto, de um momento para o outro, fiqui céptico em relação ao que irá sair daqui.
Apesar dos meus medos pessimistas, tenho um traço de personalidade que é capaz de ser a minha salvação neste momento. A cada passo, acho que devemos fazer o que é correcto e não o que nos parece melhor ou mais óbvio. É a minha sorte. Os fantasmas que entraram no meu cérebro querem empurrar-me para a desistência. Passam o tempo a sussurar-me: «Caga nisso, essa coisa não vai dar em nada». Mas como o correcto é fazer todos os esforços, não irei parar agora. Durante a próxima semana já saberei, pelo menos de forma preliminar, se os fantasmas têm ou não razão.
Espero que não, porque ainda me dá muito gozo contrariar os outros... mesmo que sejam apenas fantasmas.

Terça-feira, Maio 22, 2007

Trabalho

Há semanas encontrei um amigo dos tempos da escola secundária. Ele nunca foi muito bom da cabeça, mas agora está a ficar pior, quer-me parecer. Trabalha numa empresa de segurança numa grande superfície comercial e deu-me conta do descontentamento com a vida profissional. Nada de admirar, tendo em conta aquilo que ele faz.
Mais bizarro, para quem não o conheça, e um bocadinho de nada estranho, para quem o conhece, é a descrição que ele faz da sua situação laboral. «Eles andam a atrofiar-me o cérebro. Eu bem sinto que o meu cérebro está a sofrer modificações e a culpa é deles. Mal eles sabem que eu os tenho na mão. Aqui na minha mãozinha», contou-me, antes de desatar a dar gargalhadas como os vilões dos filmes e já depois de me ter relatado o seguinte episódio: um belo dia, no trabalho, olhou para as câmaras de filmar e desatou a rebolar pelo chão e a apontar para os aparelhos de captação de imagem, rindo-se da situação.
Ora bem, eu ainda não cheguei a esse extremo, mas também sinto que o trabalho anda a atrofiar-me o cérebro. Há semanas que quase me afogo em afazeres profissionais, há semanas que não tenho ideias brilhantes, pensamentos artísticos, vontade de viver da criação. Ando tão envolvido nuns novos projectos que quase gosto de trabalhar. Vá lá que mantenho o meu emprego precário e mau numa empresa de telecomunicações. Pelo menos, isso mantém-me alerta contra a tentação de gostar da labuta.

Sexta-feira, Maio 18, 2007

José no País dos Tribunais (8)

Depois da "pré-sentença", já foi publicada a sentença: estou absolvido no processo que me foi movido por um presidente de Câmara que nem merece ser nomeado. Fui absolvido eu e foram-no os restantes sete réus. O acusador vai pagar as custas judiciais de nós todos.
Quando tiver na mão a decisão do juiz, faço aqui um resumo. Suponho que tenha alguns pormenores que valham a pena ser partilhados.

Terça-feira, Maio 15, 2007

Viagem com a doença a bater e com as galinhas a cacarejar

Vivi esta manhã uma dura experiência. Vindo de um fim-de-semana prolongado pela febre - sim, ontem não trabalhei por estar ainda febril -, fui trabalhar hoje de manhã bem cedo. Eram 7h30 quando saí de casa, ainda bastante dorido, muito ensonado e com a garganta inchada e a doer fortemente.
Obviamente, o que eu mais queria era sossego. Mas quis a desdita que o meu autocarro fosse o mesmo tomado por dois grandes e ruidosos grupos de mulheres, daquelas que todos os dias se juntam na ida para os respectivos empregos para comentar a vida das personagens das novelas, sejam estas ficcionais ou reais.
O escarcéu era tremendo. E este vosso amigo, meio atordoado pela doença e pelas drogas que o hão-de curar, lá teve de aturar aquilo tudo. Nem queiram saber as teorias que as senhoras desenvolveram acerca do rapto da chavala no Algarve. Mesmo que quisessem saber, não podiam, porque só me recordo de uma.
«Aquilo foi a mãe que a vendeu, provavelmente porque a menina era filha de outro homem com quem ela ia para a cama e não do marido», sentenciou uma das passageiras barulhentas... segundos antes de se esquecer de sair na paragem do costume.

Quinta-feira, Maio 10, 2007

Perda de apetite

Farto de ver crescer a pança e os pneus adjacentes, ontem, finalmente, decidi-me e hoje executei a decisão: comecei esta manhã as sessões de, pelo menos, 30 minutos de pedalada numa bicicleta fixa.
Acordei cedo, desmontei o cabide e a prateleira em que, nos últimos anos, se transformara a bicicleta fixa e desatei a castigar os pedais. Foram 30 minutos, bem medidos, de esforço contínuo.
Tomado o banho, saí para tomar café e ler as notícias. É claro que, depois da estafa, a primeira coisa em que reparei foi na montra de um dos restaurantes da minha rua. Um papel manuscrito colado no vidro anunciava um suculento prato do dia: Rojões à Moda do Minho. Iniciei, de imediato, um potente processo de salivação.
Veio-me à ideia a impossibilidade de ginasticar-me sem aumentar o consumo de avantajadas refeições. Estava com essa ideia em mente quando leio no jornal que o Abadia, verdadeiro templo de bem comer por um preço razoável no Porto, foi atingido por um incêndio e ficará encerrado por mês e meio. Perdi o apetite.

Quarta-feira, Maio 09, 2007

Hoje apetecia-me...

... estar na baixa de Lisboa ou na terra de uma das primas a comer um pratinho de caracóis, regando-o com duas ou três imperiais (para usar o dialecto de lá).

Sábado, Maio 05, 2007

Liberta o idiota que há em ti!

Não percas tempo! Só tens uma semana e começa hoje a contar.

Sexta-feira, Maio 04, 2007

O meu chama-se Nicolau

José no País dos Tribunais - O Regresso*

Ontem de manhã, lá voltou o vosso José aos tribunais. Desta vez, não como réu mas como testemunha num caso que está em fase de inquérito.
À chegada ao edifício judicial, um prédio de habitação transformado em tribunal, teoricamente a título provisório, há mais de dez anos, tive uma agradável surpresa. Contra todas as expectativas, vi ali um saudável ambiente revolucionário-democrático. Em todos os postos de trabalho dos funcionários judiciais havia cravos vermelhos.
A rubra flor era um sinal de algo de bonito poderia ali passar-se comigo. No entanto, o sinal seguinte foi de sentido oposto. Fui para o interrogatório às escuras, desconhecia completamente aquilo sobre o que seria inquirido. Mas logo ali encontrei um camarada que estava no mesmo barco e percebi que os cravos eram só para enganar, pois está em causa um assunto que tem a ver com liberdade de expressão, alegado abuso da mesma e ameaças físicas e até de morte relacionadas com a questão.
Ao que parece, o poder político desta gamela malcheirosa a que chamam concelho não gostou de ler uns escritos anónimos no blogue chamado Câmara Municipal da Regueifa e avançou com um processo contra desconhecidos, adiantando, contudo, nomes de possíveis autores do blogue.
Uma das pessoas indicadas como potencial difamador não gostou de ser colocado sob suspeita e reagiu, também através dos tribunais. Na sua queixa refere as ameaças de que foi alvo e declara-se vítima de consequências ao nível da saúde psicológica. Foi esse elemento que me indicou como testemunha. Eu disse apenas o que sabia, como é óbvio.
O mais interessante do meu regresso aos tribunais não foi, todavia, o interrogatório de que fui alvo. A espera, nos corredores entupidos de pessoas, marcou-me bem mais. Nesses minutos, percebi que os cravos que admirei à entrada são um símbolo sem significado em Portugal. Num país em que a revolução anunciada pelas flores primaveris se tivesse concretizado não haveria, aos magotes, o tipo de gente que tornava claustrofóbicos os corredores do tribunal: pessoas sem educação, pobres e pouco inteligentes.
As considerações deixadas no parágrafo anterior não são um acto de snobismo parvo, são um lamento de quem gostava de ver Portugal mais evoluído. Feito o esclarecimento, avancemos no relato da minha passagem pelo Tribunal de Valongo.
O melhor exemplo da carência de dignidade humana de uma parte ainda substancial do nosso povo foi a discussão de uma advogada com o seu cliente. Ali, no meio da barafunda geral, num corredor apertado de um prédio que era suposto ser de habitação, mas que funciona como casa da Justiça.
Acabados de sair de um julgamento, advogada e cliente estavam frente a frente. Dispara a jovem causídica: «O senhor tem noção do que acabou de fazer? Você acaba de condenar-se a si próprio. Eu não avisei de como as coisas seriam? Mas você ainda não compreendeu que eu sou sua advogada e que estou aqui para ajudá-lo. O senhor fez tudo ao contrário do que eu lhe disse. Agora venha cá no dia 15 para ouvir o que o juiz tem para lhe dizer. Provavelmente vai mandá-lo para a cadeia». Depois deste raspanete, o homem continuava inerte, ainda sem perceber nada do que lhe estava a suceder. Que melhor retrato do povo português: enterra-se cada vez mais no lodo e nem sabe como nem porquê. E quem poderia ajudar, acaba por perder a paciência. Foi o que fez a advogada: «Olhe, vou-me embora que é para não me suicidar», disse ela ao cliente-condenado-anunciado.
Já depois disto e após prestar testemunho, quando estava de saída, reparei que um dos cravos, presente em cima de uma secretária, já perdera o viço. O vermelho transformara-se numa outra cor, escura. Este, sim, era um sinal verdadeiro do país que temos.

*Este título é genial no contexto de toda esta história em que me vi metido. Para que percebam melhor, apenas deixo uma pista: primeira sequela do cinema português. E mais não digo.

Quinta-feira, Maio 03, 2007

Escrita em dia

A perspectiva de voltar a ganhar a vida com a escrita fez-me cair em mim. Concluí que, nos últimos meses, desprezei a forma, preocupando-me unicamente com o conteúdo. Uma leitura, que nem precisa de ser muito atenta, pelos meus blogues documenta e confirma a minha conclusão.
Neste momento, estou de regresso à fase anterior. Com a tal perspectiva de ganhar a vida escrevendo, voltei a sentir a necessidade de enobrecer a técnica com o intuito de, assim, enriquecer o conteúdo. A pressa com que vinha alinhavando as prosas, produziu textos descosidos, deselegantes e, por isso mesmo, pouco eficazes na transmissão das ideias que pretendiam veicular.
A necessidade de apresentar produtos de qualidade a potenciais investidores nos projectos que tenho em carteira obriga-me a um esforço para burilar a minha técnica de comunicação preferida. Tenho gostado do exercício. Ainda é cedo para saber se os resultados irão coincidir com os propósitos, mas o processo em si já é uma vitória. Redescobri o prazer da escrita à mão em blocos de apontamentos de folhas lisas. Só isso já é muito bom, porque nenhum prazer é em excesso.

Domingo, Abril 29, 2007

A vingança

A vingança é tida como um sentimento negativo. Tal concepção advirá, porventura, de uma visão comportamental que tem no cristianismo a sua raiz. E do cristianismo vem aquela frase que diz devermos «dar a outra face». Discordo desta lição de moral e discordo da catalogação da vingança como algo de negativo.
A vingança, na minha opinião, demonstra nobreza de carácter. Sente-se impelido à revanche aquele que é vítima de uma injustiça. Por norma, a necessidade de desforra é maior quando o injustiçado é boa pessoa. Quando se faz tudo dentro daquilo que está estabelecido como correcto e, apesar disso ou até por causa disso, sofre-se um dissabor.
Portanto, entendo a vingança como uma afirmação suprema da nobreza de carácter. Alguém que, de tão bom, acaba por ser prejudicado pela sua bondade tem o direito/dever de irar-se e de vingar-se o melhor que puder. É por isso que compreendo e aplaudo os maridos encornados que se vingam matando mulher e amante. É por isso que, sentindo-me encornado pelo senhor Jesualdo Ferreira, no início desta época futebolística, ontem saboreei a vingança.
Esta manhã acordei com a garganta dorida e com a voz rouca. Mas fiquei feliz por isso. Era um sinal de que a vingança fora boa. Que bem me soube gritar duas vezes golo no Estádio do Bessa! Que maravilha que foi voltar a berrar o nome do meu clube para incentivar os jogadores. Mas o gozo supremo foi mesmo integrar aquela parte do público que não se coibiu de acentuar a humilhação do traidor Jesualdo Ferreira: «Ó Jesualdo, vai pró caralho!», gritei eu e mais uns milhares. Aos traidores nunca se perdoa. Aplica-se-lhes a vingança.

Quinta-feira, Abril 19, 2007

O fascínio do tele-esterco

Esta manhã, como é uso, desloquei-me ao café para ler o jornal - hoje até li uma revista, mas isso é um pormenor. Sentado a saborear a bebida de cafeína e a ruminar as reportagens, dei comigo a desviar a atenção para o televisor sintonizado no programa da manhã da TVI.
Na pantalha, além do sempre estridente Manuel Luís Goucha, aparecia a inenarrável Luísa Castel-Branco. A senhora dava mostras de boa forma na sua especialidade profissional: debitava banalidades com convicção de praticar filosofia. Mas, a dado momento, a convidada do antigo cozinheiro de coisas doces sem açúcar soltou uma das suas pérolas e, com isso, desenhou um sorriso no meu rosto.
Estou prestes a dar em paranóico com o crescente volume abdominal que transporto e, uma só frase, é o suficiente para me levantar o moral. «Um homem sem barriga, não é homem», disse Luís Castel-Branco. É este o fascínio do tele-esterco: cura mais depressa do que uma ida à cartomante, já de si mais eficaz do que um médico.

Vejam como se trata um gajo de bem e ajam em conformidade

Terça-feira, Abril 17, 2007

Nunca imaginei...

... que me pagassem para ir a bares e discotecas beber uns copos e escrever sobre o assunto. Nunca pensei tal coisa, mas eis que essa improvável situação acontece. A partir de Junho sou o gajo que escreverá o roteiro da noite do Porto e do Norte na melhor newsmagazine do País.
Era uma das propostas que eu recebera e que aqui referi. Ainda há mais projectos na manga. Isto não pára!

Dúvida

Há minutos, deslocava-me eu contrariado pelos corredores do Maiashopping - é sempre contrariado que ando em centros comerciais, é um preconceito ideológico assumido - quando um cavalheiro se dirige a mim para pedir informações. Ele passou por dezenas de pessoas, pelo segurança do espaço, por um quiosque de café, por várias lojas. Mas foi a mim que entendeu colocar a questão: «Sabe dizer-me onde fica a livraria?».
De imediato, pensei: A minha alta capacidade intelectual transpira por todos os poros. O gajo olhou para mim e topou logo estar perante um tipo bastante lido, que, obviamente, sabe onde está instalada a livraria. Mas num segundo momento reconsiderei a percepção inicial. Será que tenho ar de rato de biblioteca?
E agora fiquei na dúvida.